segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Resumo: Torcidas Organizadas de Futebol - Luiz Henrique de Toledo

Niterói, julho de 2008.

Resumo

Texto: Torcidas Organizadas de futebol

Autor: Luiz Henrique de Toledo

Luiz Henrique de Toledo, em seu livro Torcidas Organizadas de Futebol, se dispõe a captar, como um processo, a dinâmica das Torcidas Organizadas não apenas nos estádios por ocasião dos jogos mas também nas sedes, quadras, trajetos de ruas, viagens e atividades rotineiras.

Toledo inicia seu livro com um breve histórico do futebol na capital paulista, dos seus respectivos clubes de futebol, dos estádios, dos primeiros campeonatos. Em relação as Torcidas Organizadas, o autor cita a Charanga do Flamengo, fundada em 1942, no Rio de Janeiro, pelo torcedor Jaime Rodrigues de Carvalho, como a primeira torcida do Brasil.

O autor faz uma distinção das Torcidas Organizadas, considerando-as em dois momentos (fases). A primeira fase das Torcidas Organizadas teve início nos anos de 1940 até o fim da década de 1960. Nesta fase, Luiz Henrique de Toledo, à respeito das Torcidas Organizadas e de seus respectivos torcedores, argumenta que nessa primeira fase “(...) os agrupamentos de torcedores eram vinculados aos times, geralmente a alguém envolvido com a organização institucional do futebol (político, dirigente, funcionário de ligas ou federações de futebol) ou ainda oriundos da atividade e do empenho pessoal de alguns indivíduos”. (TOLEDO, 1996: 22).

A partir da década de 70, o futebol extravasa domínios locais no Brasil, tornando-se explicitamente um fator de agenciamento de interesses políticos, econômicos e sociais mais abrangentes. No Brasil, somente entre os anos de 1972 e 1975, trinta estádios de médio e grande porte foram construídos em vários estados do país.

Na primeira fase das Torcidas Organizadas nos estádios brasileiros, o torcedor-símbolo das Torcidas Organizadas era denominado como 'chefe' e não como 'presidente' da torcida, como nos dias atuais. Jaime Rodrigues de Carvalho, o Jaiminho, fundador da Charanga do Flamengo, foi assim, exemplo de torcedor-símbolo de Torcidas Organizadas no Brasil na primeira fase das Torcidas Organizadas como argumenta o autor.

A partir do final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, Toledo aponta como sendo o período que se inicia a segunda fase das Torcidas Organizadas no Brasil. Neste segundo momento, o perfil do torcedor começa a sofre mudanças, e as Torcidas Organizadas se configuram, de acordo com o autor, como “(...) agrupamentos que fazem a medição entre o anonimato da condição de indivíduo-torcedor e a indiferença de pertencer à massa torcedora”. (TOLEDO, 1996: 43).

Desde então, as torcidas Organizadas começam a ocupar seu espaço nos centros urbanos do país, fixando sedes, confeccionando camisas, bandeiras, faixas, entre outros tipos de pertences. Suas sedes “(...) são espaços onde se repõe o grau de solidariedade e identificação e onde diariamente os torcedores organizados vislumbram a possibilidade de se encontrar e manter-se atualizados sobre diversas atividades – festas, jogos de várzea...”. (TOLEDO, 1996: 51). As sedes das Torcidas Organizadas são “(...) espaços que lhes conferem um status dentro do imaginário social edificado a partir dos aspectos que cercam e compõem a prática do futebol profissional na cidade”. (TOLEDO, 1996: 51).

Os torcedores organizados se apropriam desses espaços reconhecendo-os como se fossem espaços privados e distinguem-se tanto desses locais de moradia quanto dos espaços públicos da rua.

A camisa, uma das marcas distintivas das Torcidas Organizadas de Futebol “(...) consiste na mistura do design da camisa do time com nomes e símbolos próprios, escolhidos pelos torcedores”. (TOLEDO, 1996: 52). Esses símbolos próprios são classificados pelo autor em três categorias: animais (urubu, gavião, porco, etc.), personagens de gibis e dos comics, quadrinhos ou ficções (mancha, irmãos metralha, Zé carioca, etc.) e entidades fantásticas e divindades (dragões, serpentes, santos, etc.). Para se chegar a esses símbolos, as Torcidas Organizadas fazem “(...) a escolha de cada símbolo ou dos mascotes, que representam a torcida de um time, [que] depende de uma série de circunstâncias, fatos, imagens, percepções, qualidades recolhidas do imaginário social complexo, que se configura em nossa sociedade”. (TOLEDO, 1996: 53). Toledo também nos diz que “(...) todos estes símbolos escolhidos os remetem, de algum modo, à esfera do incontrolável, do ingovernável, do imprevisível”.(TOLEDO, 1996: 55).

Ser um torcedor organizado é, sobretudo, assumir seus símbolos e marcas. A camisa de uma Torcida Organizada, por exemplo, “(...) expressa o pertencimento ao grupo. Revela o afeto ao time tanto quanto à própria Torcida. Ela demarca diferenças, delimita espaços, reitera identidades, solidariedades e oposições”. (TOLEDO, 1996: 57).

A bandeira de uma Torcida Organizada “(...) é um símbolo que deve ser efígies preservado a todo custo”. (TOLEDO, 1996: 58-59).

Já as faixas das Torcidas Organizadas “(...) basicamente são utilizadas como endereços na demarcação e delimitação de 'territórios' nas arquibancadas nos dias de jogos”. (TOLEDO, 1996: 59).

Luiz Henrique de Toledo argumenta também que os símbolos das Torcidas Organizadas como “(...) as camisas, a exemplo dos bonés, das faixas e das bandeiras são suportes onde se expressam os símbolos distintivos e marcas tanto dos clubes quanto, sobretudo, das próprias Torcidas Organizadas”. (TOLEDO, 1996: 59).

Utilizando o próprio corpo para marcar os símbolos das Torcidas Organizadas “(...) as tatuagens inscrevem no corpo de cada torcedor organizado o pertencimento, a conduta e a 'lei' geral”. (TOLEDO, 1996: 59).

A bateria de uma Torcida Organizada faz “(...) a marcação (sonora) dos cantos, gritos de guerra, dos hinos, dos xingamentos e é responsável pela manutenção e sintonia dos movimentos e coreografias, pelo tremular das bandeiras e entusiasmo dos integrantes”. (TOLEDO, 1996: 60). Alguns ritmistas das baterias das Torcidas Organizadas participam também de outros movimentos culturais, como as escolas de samba.

Os torcedores organizados ao participarem das atividades dentro dos estádios, se dispõem a participarem de forma dedicada aos eventos que circunscrevem as Torcidas Organizadas. Para o autor, quando os torcedores organizados participam das atividades das torcidas “(...) há toda uma expressividade corporal posta à prova, que traduz um êxtase contínuo, pois, o conjunto percussivo raramente pára de tocar ao longo de um jogo, exigindo sempre dos torcedores organizados uma guerra que transcende a posição de meros expectadores da partida”. (TOLEDO, 1996: 60).

O uso do palavrão é frequentemente utilizado pelas Torcidas Organizadas nos seus cantos, gritos de guerra, entre outras expressões lingüísticas. Atualmente, “(...) o palavrão serve tanto para apupar os adversários, os juízes, outras torcidas ou mesmo cantar a situação difícil da vida”. (TOLEDO, 1996: 60).

Muitos cantos e gritos de guerra evocados pelos torcedores nos estádios brasileiros contêm palavrões em suas letras. Os cantos e gritos de guerra são na maioria dos casos “(...) satíricos, jocosos, ofensivos, grotescos, engraçados, alguns criativos, enfim, estes cantos e gritos de guerra traduzem uma série de visões do outro expressas nesses padrões de comportamento verbal típicos entre torcedores de futebol. Para além da gratuidade e obviedade disparadas das arquibancadas, como pensam alguns, os duelos verbais travados entre torcedores devem ser compreendidos dentro de uma trama ritual de significações simbólicas, filtradas, codificadas em músicas e versos, retiradas da própria sociedade e de seus temas mais recorrentes” (TOLEDO, 1996: 65).

Os cantos e gritos de guerra são classificados pelo autor em 03 categorias: incentivo ao time e jogadores; intimidadores; auto-afirmação. Em todos esses tipos de cantos e gritos de guerra, o uso de palavrões também é comum. “Geralmente, nos cantos que se prestam à auto-afirmação e ao incentivo, os palavrões usados exaltam atributos masculinos de potência, virilidade(...) palavrões como caralho, porra, fuder são comumente usados”. (TOLEDO, 1996: 65).

“Nos cantos de protestos e intimidação os palavrões são opostos e exprimem, de maneira jocosa a passividade sexual e, em decorrência deste estereótipo, a subordinação e fraqueza tanto dos jogadores, dirigentes, árbitros, polícia, quanto dos torcedores adversários”. (TOLEDO, 1996: 66).

As Torcidas Organizadas também ocupam as ruas das cidades brasileiras. No caminho da sede para os estádios “(...) a rua é o espaço dos perigos, das interdições e da negociação para aqueles que vivenciam o papel dos torcedores de futebol ou torcedores organizados”. (TOLEDO, 1996: 73). Em alguns desses trajetos ocorre reforço policial, transporte exclusivo para torcedores, diferentes itinerários para as torcidas adversárias no intuito de minimizar os possíveis conflitos entre elas.

O conflito entre Torcidas Organizadas é um fato corriqueiro nas grandes cidades, dentro e fora dos estádios. Para Luiz Henrique de Toledo, “(...) a dinâmica de aproximação e distanciamento entre elas é pautada não somente pela natureza competitiva instaurada pelo futebol(...) mas também entra em disputa a ocupação de um espaço político junto aos clubes, e frente a outras torcidas de outros estados pois, ter amigos fora de casa é sinal de respeito e reconhecimento”. (TOLEDO, 1996: 99).

O autor também argumenta, apropriando-se de teóricos como Bourdieu que, em relação aos conflitos, as Torcidas Organizadas “(...) competem entre si pela posse de prestígio, poder, visibilidade e de um capital simbólico onde(...) as lutas pelo reconhecimento são uma dimensão da vida social e de que nelas está em jogo a acumulação de uma forma particular de capital”. (TOLEDO, 1996: 99-100).

Em relação ao futebol, um dos esportes mais populares e praticados no mundo moderno, Toledo nos diz que “(...) se o futebol é um provedor de formas e padrões de sociabilidade na metrópole ele também é, concomitantemente, a manifestação de conflitos, preferências, paixões, excessos e violências. Seguramente o futebol apresenta inúmeros temas e dimensões das sociedades contemporâneas: política, organização burocrática, interesses econômicos, a expansão do fenômeno da violência urbana etc. E no Brasil, em particular,(...) ele recorre a muitos dos níveis das experiências divinatórias, crenças, uma concepção específica do esporte moderno enquanto jogo, que associa habilidade física, técnica a um sistema simbólico operado pelo binômio sorte/azar”. (TOLEDO, 1996: 100).

A sociabilidade que envolve o futebol “(...) impõe um jogo de diferenças sempre aberto às negociações, aos conflitos, aos improvisos, ao possível, à violência, ao mesmo tempo de afirmação diante do outro”. (TOLEDO, 1996: 103). Argumentando a cerca da sociabilidade proporcionado pelo futebol, o autor nos diz que, pensar a sociabilidade engendrada pelo futebol “(...) é sempre pensar, em alguma medida, no conflito. O futebol funda uma sociabilidade assentada em um jogo de diferenças e oposições”. (TOLEDO, 1996: 104).

O termo conflito, dentro das perspectivas apresentadas pelo autor pode ser definido como uma luta por valores e reivindicações de status, poder e recursos escassos, em que o objetivo dos oponentes consiste em neutralizar, lesionar ou eliminar ou rivais.

Analisando o aspecto lúdico do futebol em suas várias dimensões, como fruição e festa, mas também como negociação e excesso, o futebol “(...) recria a cada jogo ou partida diferenças simbólicas entre torcedores bem como dramatiza as contradições sociais, discussão recorrente sobre as implicações do futebol. Pensar o conflito no futebol é pensar na polissemia promovida por sua sociabilidade. Sociabilidade que consegue unir adversários em uma mesa de bar ou na sede das Torcidas Organizadas, bem como segregá-los nas arquibancadas”. (TOLEDO, 1996: 104).

As Torcidas Organizadas se identificam no outro, de maneira simétrica, porém inversa, que, posta à prova a cada jogo, “(...) dimensiona-se o lado ameaçador e negociador da sociabilidade engendrada pelo jogo”. (TOLEDO, 1996: 104). A relação com o outro é sempre potencialmente ameaçadora e ao mesmo tempo fundadora. Ou seja, ameaçadora porque coloca a toma a ambivalência do conflito e situações de violência contidas nos momentos de festa, reuniões sociais, jogos. E fundadora porque cada jogo instaura e reafirma a diferença simbólica entre torcedores.

Luiz Henrique de Toledo, dialogando com outros autores que estudam o tema futebol, de uma forma geral, argumenta que “(...) a resolução do conflito na forma da competição (no futebol, sobretudo), para autores como Da Matta, também vislumbra a possibilidade de revelar um igualitarismo individualista engendrado por regras universais, apelando para valores positivos onde os melhores tem a possibilidade da vitória(...) e através do futebol tem-se a possibilidade de ensinar o que é uma derrota e o que é uma vitória, ou seja, a perder e a ganhar, de maneira democrática”. (TOLEDO, 1996: 105).

A sociabilidade que envolve o futebol “(...) impõe um jogo de diferenças sempre aberto às negociações, aos conflitos, aos improvisos, ao possível, à violência, ao mesmo tempo de afirmação diante do outro”. (TOLEDO, 1996: 103). Argumentando a cerca da sociabilidade proporcionado pelo futebol, o autor nos diz que, pensar a sociabilidade engendrada pelo futebol “(...) é sempre pensar, em alguma medida, no conflito. O futebol funda uma sociabilidade assentada em um jogo de diferenças e oposições”. (TOLEDO, 1996: 104).

O termo conflito, dentro das perspectivas apresentadas pelo autor podem ser definidas como uma luta por valores e reivindicações de status, poder e recursos escassos, em que o objetivo dos oponentes consiste em neutralizar, lesionar ou eliminar ou rivais.

Analisando o aspecto lúdico do futebol em suas várias dimensões, como fruição e festa, mas também como negociação e excesso, o futebol “(...) recria a cada jogo ou partida diferenças simbólicas entre torcedores bem como dramatiza as contradições sociais, discussão recorrente sobre as implicações do futebol. Pensar o conflito no futebol é pensar na polissemia promovida por sua sociabilidade. Sociabilidade que consegue unir adversários em uma mesa de bar ou na sede das Torcidas Organizadas, bem como segregá-los nas arquibancadas”. (TOLEDO, 1996: 104).

A rivalidade e amizade entre Torcidas organizadas são valores relativos e dependem das circunstâncias de quem seja o adversário no momento, de determinados acontecimentos e da posição que ocupam pois, “(...) neste jogo de alianças e oposições entre Torcidas Organizadas não é estabelecida uma rígida estrutura prescritiva, ou seja, determinados sistemas onde grupos delimitados estabelecem regras obrigatórias que prescrevem anteriormente em muito a maneira pela qual as pessoas devem agir e integrar. Neste caso as relações entre torcedores e Torcidas Organizadas aproximam-se mais daquilo, que Sahlins denominou por estruturas performáticas, ou seja, interações que tendem a assimilar-se às circunstâncias contingentes(...)”. (TOLEDO, 1996: 111). Esta rede de alianças entre Torcidas Organizadas somente pode ser verificada e reiterada a cada jogo e encontro entre torcidas.

Acerca do conflito e sociabilidade empreendido pelo futebol jogado, administrado e , acima de tudo, vivido no Brasil, dramatiza as duas noções: a da igualdade da regra e a da hierarquia. Portanto “(...) sociabilidade e conflito fazem parte do universo relacional empreendido pelas práticas em torno do futebol. As Torcidas Organizadas inauguram uma sociabilidade própria, regida por regras específicas de pertencimento, afinidade e oposição aos clubes e torcidas. Sociabilidade que também traduz a dimensão política de negociação, da hierarquia, conflito, prestígio e poder”. (TOLEDO, 1996: 111-112).

As Torcidas Organizadas assumem, de acordo com Toledo, uma perspectiva tanto de lazer quanto de estilo de vida. E o futebol não consiste tão-somente num momento de fruição e entretenimento, como se fosse uma mercadoria consumida em algumas poucas horas. Ao contrário, ele é parte constitutiva na elaboração de um estilo de vida próprio. Ao assumirem preferências “(...) pelas cores do coração, por símbolos e marcas de cada Torcida Organizada, estes indivíduos referendam condutas específicas diante dos outros grupos, na escola, no trabalho, na vida privada, no próprio cotidiano”. (TOLEDO, 1996: 114).

Com o desenvolvimento industrial, processo oriundo da acumulação de capital e da divisão do trabalho, a esfera do trabalho assumiu, uma importância nas sociedades modernas que redefiniu e engendrou novas formas de aproximação e concepção de tempo, do espaço, redimensionando as relações entre os homens. Dessa forma, no registro da cisão entre capital e trabalho, foram estabelecidas outras dicotomias, entre as quais, trabalho e não-trabalho, ou melhor, trabalho e tempo livre. Neste sentido, e de forma geral, todo o tempo que reside fora da esfera do trabalho é definido tempo liberado ou livre, de acordo com o autor.

Na análise de outras correntes teóricas, sobre o tema, Toledo nos fala que “(...)o tempo livre foi problematizado como sinônimo de hobby, esporte, recreação, divertimento, lazer, tempo destinado à satisfação dos interesses privados, familiares, ou ainda interesses políticos, religiosos, educacionais e pedagógicos etc.” (TOLEDO, 1996: 115). Esses outros estudos apontam que o fenômeno do lazer deve ser entendido como uma “(...) esfera autônoma diante de outras atividades que preenchem o tempo liberado (não-trabalho), tais como ocupações familiares, atividades políticas, religiosas etc.” (TOLEDO, 1996: 116).

O autor argumenta em seu livro, em relação aos torcedores organizados, que a participação destes nas Torcidas Organizadas sugere uma satisfação pessoal e que, por outro lado, “(...) a elaboração dessas festas implica dispêndios e adesões a projetos coletivos na realização e concepção desse tipo de divertimento”. (TOLEDO, 1996: 117).

Outros trabalhos conceitualizam o uso do tempo livre em duas outras categorias: diversão e recreação. A recreação, de acordo com o autor, estaria diretamente orientada por atividades criadoras e organizadas para trazerem benefícios ao desenvolvimento pessoal e ajustamento ao grupo, bem-estar individual e maior rendimento no trabalho. Já as diversões estariam no âmbito da satisfação de fatores econômicos, perdendo as conotações de satisfação individual e ajustamento social. O próprio futebol aparece, como sendo um fenômeno da ordem da diversão dentro destas formulações e, portanto, comprometido com um clima próprio à competição desenfreada e desleal, à agressão física e verbal, no campo de futebol e fora dele.

Luiz Henrique de Toledo faz uma síntese das análises que enfatizam “(...) a passividade do espectador, que reproduz no esporte a lógica da alienação do processo de trabalho, ou aquelas que vislumbram no comportamento nocivo propiciado pelo incitamento ao espectadorismo não-participativo das diversões de massa, ou mesmo o emprego das categorias lazer e semilazer formuladas por Dumazedier(...)” (TOLEDO, 1996: 117). E mostra que essas análises não dão conta, em grande medida, das “(...) práticas e das estratégias de diferenciação sociais dos grupos de torcedores aqui analisados”. (TOLEDO, 1996: 117).

No decorrer de sua pesquisa, Luiz Henrique de Toledo discursa sobre “(...) a formação de um padrão de sociabilidade, engendrada pelas Torcidas Organizadas, expresso numa determinada maneira de torcer e participar no futebol profissional, incorporando novos símbolos, inaugurando performances, uma estética, comportamentos, regras, organização, constituindo um determinado estilo de vida no modo como usufruem e participam do futebol”. (TOLEDO, 1996: 122). O uso da violência no futebol como um mecanismo e meio de intervenção na sociedade, como forma de protesto e revolta, que agrupa estes torcedores organizados, “(...) mesmo quando criticam os políticos não estão negando o sistema ou se contrapondo ao Estado ou a qualquer ordem constituída. A delinqüência deliberada como processo de autolegitimidade e coesão interna desses grupos torcedores não constituem na única estratégia de diferenciação perante a sociabilidade. Ao contrário, a maioria das Torcidas Organizadas procura ser percebida como instituição, comunidade e portadora de projetos comuns legítimos reconhecidos por outros grupos”. (TOLEDO, 1996: 123).

Identificar os torcedores organizados no Brasil como hooligans, é um discurso fortemente veiculado pelos meios de comunicação, pois, antes de caracterizá-los como hooligans brasileiros, é necessário outras indagações no intuito de precisar tanto a prática dos torcedores europeus, em particular os torcedores ingleses quanto a dos torcedores brasileiros, pois, “(...) os variados modos de vida jovem que uma metrópole encerra, as múltiplas formas de sociabilidade e ocupação dos espaços da cidade, acontecimentos como shows, enfrentamento de grupos rivais, os bandos que caminham pelas ruas, enfim, frequentemente são nomeados pela designação genérica de tribos urbanas. Assim, carecas do subúrbio, punks, góticos, rockabillies, hare krishinas e até mesmo as Torcidas Organizadas ajustam-se, num discurso do senso comum, desta denominação que ora se refere pejorativamente às características comportamentais selvagens e primitivas desses agrupamentos, ora serve para designar a homogeneidade interna de cada um desses grupos, particularizando-os dentro da cidade. Ou mesmo evocar certos eventos específicos onde os excessos e as transgressões ditam padrões de comportamento (shows de rock, jogos etc.). Portanto, a utilização indiscriminada da metáfora tribos urbanas obscurece, mais do que ajuda a esclarecer, a variada gama de comportamentos produzidos na cidade gerados por esses diferenciados grupos”. (TOLEDO, 1996: 125).

Tendo como origem o nome de uma família de irlandeses que viveu em Londres no fim do século XIX, com características de violência e de não-sociabilidade de seus membros – família 'houlihan' – este termo 'hooligans' passou, gradativamente, a designar os jovens que se organizam em grupos bastante coesos, que praticam atos de violência e violação das regras. Hooligans “(...) é o termo utilizado atualmente para designar tanto um segmento da torcida inglesa, que freqüenta as partidas de futebol, quanto um determinado comportamento agressivo observado nos estádios ou fora deles”. (TOLEDO, 1996: 125).

No que concerne às origens, às representações construídas em torno do futebol, o modo como se organizam, o relacionamento com a sociedade mais abrangente etc., mostra as significativas diferenças entre os torcedores organizados ingleses e brasileiros. A Copa do Mundo de futebol de 1966, realizada na Inglaterra, diferentemente do que jamais ocorreu no Brasil, “(...) os skinheads aproximaram-se das torcidas, sendo englobados pela mídia, posteriormente, sob o rótulo comum de hooligans. O processo de constituição desses agrupamentos, portanto, é complexo na medida em que, ao longo de décadas, incorporou vários outros grupos que vislumbraram no futebol uma possibilidade de expressão. Sendo assim, hooligans compreende, primeiro, determinadas posturas e comportamentos diante da sociedade”. (TOLEDO, 1996: 127).

Os hooligans também se organizam em grupos específicos, denominado pelos próprios hooligans como firmas. “Cada firma possui um determinado chefe, e um time chega a ter várias firmas estruturadas na forma chefe/comandados. Entretanto, nem todas as firmas constituem-se de uma mesma maneira, digamos morfologia social”. (TOLEDO, 1996: 128).

Quando os skinheads se aproximaram, a partir da Copa do Mundo de futebol de 1966, realizada na Inglaterra, não houve uma sobreposição entre esses grupos, que possuem algumas características bastante semelhantes. Uma dessas características consiste no nacionalismo exacerbado e a xenofobia.

“Este forte apelo nacionalista e a xenofobia são elementos que aproximam e possibilitam uma certa intercambialidade entre grupos com os partidos fascistas, em particular o National Front. Aproximação que confere ao termo hooligans, ainda que a maioria desses torcedores não esteja vinculada a estes partidos, uma conotação política bastante específica e que torna, sob este aspecto, a imediata comparação entre hooligans com os torcedores brasileiros problemática na medida em que tal vinculação, ou seja, Torcidas Organizadas-partidos neofascistas é empiricamente inexistente, sobretudo do ponto de vista de uma ação organizada ou mais direcionada”. (TOLEDO, 1996: 128).

A prática social caracterizada na transgressão e na violação declarada de alguma forma, como argumenta Toledo, mostra que os “(...) skinheads torcedores, ou hooligans vislumbram na transgressão um forma de coesão social grupal, protesto, visibilidade social, ainda que difusos. E o futebol consiste, entre outros, num evento privilegiado por onde tais manifestações são conduzidas, dadas as suas características populares, sendo um esporte de massa, de celebração e confronto”. (TOLEDO, 1996: 129).

Dentro das diferenças entre as Torcidas Organizadas no Brasil e os torcedores ingleses, de modo geral, e os denominados hooligans, em particular, Toledo mostra que a “(...) concepção de organização grupal das Torcidas Organizadas também difere daquela estruturada entre os hooligans que, de modo geral, prima pela transgressão deliberada e pelo anonimato, haja visto o esforço desses torcedores na veiculação de fanzines onde são mostradas e ensinadas táticas para burlar o policiamento. As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo, não negam o futebol como entretenimento ou lazer, ainda que parte de suas ações e práticas o façam” (TOLEDO, 1996: 130).

Outra característica que diferencia as Torcidas Organizadas dos agrupamentos hooligans ou de grupos como os skinheads europeus é a ausência de projetos ideológicos nacionalistas, bem como de uma concepção mais ostensiva, de negação e enfrentamento, diante das instituições sociais.

No Brasil, as Torcidas Organizadas são grupos mais descomprometidos com uma ética específica, com algo que se aproxime de uma ideologia e por isso mesmo são agrupamentos mais fluidos, dinâmicos e abertos. Embora haja um predomínio de jovens na maioria das Torcidas Organizadas, elas não são definidas e estruturadas somente em função de um único estilo (de música, de adesão a um comportamento) predominantemente jovem. A princípio, qualquer pessoa pode integrar (e, de fato, isto ocorre) numa torcida. Ela pode ser de direita ou de esquerda, velha ou moça, gostar de samba ou rock, gostar de brigar ou não.

Mesmo contradizendo o discurso da elite dirigente das Torcidas Organizadas, é inegável que o “(...)uso da intervenção física como forma de interação e mediação das relações entre torcedores, com o outro, o adversário, ou mesmo como apelo à coesão social grupal, faz com que estes grupos sejam vistos, pela mídia e pela população, como hooligans brasileiros, formadores e fomentadores de gangues. Por outro lado, tentam desvincilhar-se de tais estigmas organizando-se e procurando no nível do discurso, na participação em eventos como o carnaval oficial e na negociação com outras instituições e grupos (PM, Torcidas Organizadas, Imprensa) formas mais legitimadas de interação social e participação no futebol profissional e na sociedade”. (TOLEDO, 1996: 131).

Diferente das Torcidas Organizadas no Brasil as práticas sociais implementadas pelos agrupamentos hooligans apontam para a forma de protesto e negação mais radicais perante o outro. Por sua vez, este outro se generaliza na figura dos torcedores, nos transeuntes, nos policiais, sobretudo nos imigrantes e, idealmente, no sistema político e status quo.

O comportamento hooligans e skinheads nega em grande medida a ordem liberal e democrática instituída, apontando para outros projetos e ordenações do social, ainda que somente no plano ideológico. Dessa forma, “(...) acentua-se uma conotação política expressa na intolerância e no exercício de um conjunto de idéias que, mesmo difusos e dispersos no discurso e prática desses atores, dizem respeito a grupos específicos - os neofascistas e os neonazistas, por exemplo”. (TOLEDO, 1996: 131).

Contudo, não se pode afirmar que a violência entre os torcedores organizados brasileiros se estabelece tão-somente no âmbito das relações interpessoais e intergrupais, com forte conotação de vingança, apenas com sentidos passionais e circunstâncias reveladas nos momentos de exacerbação da lógica competitiva imposta pelo futebol profissional. Pois, no Brasil, percebe-se que “(...) a dimensão política desta violência e transgressão está presente, ainda que colocada em outros termos, e deve ser dimensionada para além da imediatabilidade das práticas violentas verificadas na conduta dos torcedores organizados. Mesmo que não se constate a radicalidade orientada e suscitada pelas fobias e ódios ao outro, o comportamento transgressor observado entre os torcedores organizados brasileiros não deve ser analisado apenas como algo produzido por relações de vendeta entre Torcidas Organizadas ou atribuir explicações psicologizadas, da ordem do indivíduo, para o fenômeno”. (TOLEDO, 1996: 132).

Pois, como argumenta o autor, “(...) é sabido que as agremiações torcedoras não se hostilizam apenas entre si, bem como este não é um comportamento exclusivamente observado entre elas, ainda que sejam responsáveis pelo crescente acirramento das rivalidades ao longo das últimas décadas. Qualquer aglomeração de indivíduos, na sua maioria jovens entre 14 a 20 anos, formando grupos involuntários de torcedores adversários pela cidade (o fato de vestirem a mesma camisa de um time já os torna cúmplices) é motivado para eclodirem os enfrentamentos. A rivalidade é resposta de imediato, aparentemente anárquica, sem motivações além da emoção do instante da transgressão (que, por vezes, já resultaram em acidentes mais graves), regida por uma solidariedade mecânica cuja identidade e coesão muitas vezes são tênues e circunstanciais”. (TOLEDO, 1996: 133).

A crescente banalização da violência e da transgressão observada nos grandes centros urbanos brasileiros, processo esse que recoloca como uma espécie de linguagem, onde “(...) os torcedores (organizados ou não), as galeras funks, os arrastões, traduzem experiências de contatos externos, experimentando os limiares entre o permitido e o interdito: atos sem qualquer orientação mais imediata em termos de custo/benefício, ações que visam tão-somente apavorar o oponente, muitas vezes eleito como o outro no instante do próprio ato. Há uma crescente pressuposição ainda mais as animosidades entre torcedores, os meios de comunicação realimentam tais ocorrências na forma de espetáculos”. (TOLEDO, 1996: 133-134).

De acordo com Toledo, os fenômenos da transgressão e violência, longe de pertencerem ao universo estrito dos agrupamentos torcedores, veiculados de forma dramática através do futebol, “(...) fazem parte da própria experiência urbana mais ampla vivenciada nas cidades brasileiras: segregação espacial, desigualdades sociais, concepções sobre a justiça, e a polícia”. (TOLEDO, 1996: 134). Estes grupos exercitam e experimentam, concomitantemente, a exemplo de vários segmentos da sociedade brasileira, tanto práticas mais democráticas de organização formal, quanto relações hierárquicas, relacionais, pessoais e autoritárias, tão comuns na tradição social e política do Brasil.

A morfologia das Torcidas Organizadas, onde coexistem e se tensionam vários grupos de interesses divergentes, sentimentos e expectativas, reproduz, em alguma medida, a diversidade da sociedade mais abrangente. Esse fenômeno que ocorre em menor grau com os agrupamentos hooligans europeus, que “(...) partilham experiências mais seletivas e autocontidas, pois a grande maioria de torcedores provém da classe operária, onde muitos estão desempregados (como vislumbram) no confronto direto com a ordem estabelecida (indivíduo/Estado) formas de protesto mais efetivas”. (TOLEDO, 1996: 134).

Toledo, ao final de seu trabalho, destaca que é importante salientar de forma mais clara que, apesar do fenômeno da violência no futebol revestir-se de um caráter globalizante, pela própria maneira como este esporte se insere no contexto mundial, consolidado em inúmeros países da América Latina, África e Europa e mais recentemente Ásia, os desenvolvimentos histórico e cultural de cada um desses países atuam como condicionantes fundamentais e decisivos para se pensar nos matizes das formas assumidas na expressão desta e de diferentes outras formas de violência.


Referência Bibliográfica:

TOLEDO, Luiz Henrique. Torcidas Organizadas de Futebol. Campinas, SP: Autores Associados/Anpocs, 1996. 176p.



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Comprensão Errada = Medidas Ineficazes

Há pouco tempo atrás foi divulgado um ranquing no qual o Brasil figura em primeiro lugar no que ser refere à morte entre torcedores de futebol, no qual as Torcidas Organizadas são as principais referências. A preocupação por parte do Poder Público a esse respeito pode ter como marco os meados dos anos 90 em um episódio no estádio Pacaembu (SP) , onde houve enfrentamento e casos de morte entre Torcidas Organizadas do Palmeiras e do São Paulo. A partir daí assistimos uma busca cega, surda e barulhenta do Poder Público para tentar acabar com os enfrentamentos físicos entre torcedores, chegando até a extinguir as Torcidas Organizadas, como foi o caso no estado de São Paulo. Não deu certo!
Em Belo Horizonte foi proibido o comércio de bebida alcoólica dentro dos estádios e aos redores, assim como as bandeiras de mastros de bambu (sendo que essas já foram liberadas, mas com algumas restrições). Ainda esse ano as Torcidas Organizadas de Minas assinaram o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) que visa coibir violência entre esses agrupamentos de torcedores. Dentre outras clausuras, o TAC prevê a responsabilidade das Torcidas Organizadas como pessoa jurídica de direito privada, sendo que essas passam a ser consideradas como Associações. Outras questões como a mudança do local de concentração das TO’s em dias de jogos, mudança do local das sedes e punição com multa prevista de 50 mil para a "Organizada" que descumprir o TAC é algumas das medidas previstas. Apesar de todas essas medidas e todo o estardalhaço feito para demonstrar que algo estava sendo feito não surtiu o efeito esperado, ou seja, não diminuiu a violência entre as Torcidas Organizadas. Isso por um fato simples: uma compreensão errada e equivocada de um fenômeno social leva a se tomar medidas ineficazes.
Um simples acompanhador de jogos no Mineirão está ciente que há muito tempo não se tem violência entre Torcidas Organizadas dentro do estádio. Isso se dá principalmente pela própria estrutura do estádio e de todo aparato constituído para coibir tal violência. Esse tipo de violência só ocorre em casos específicos em que duas Torcidas Organizadas de um mesmo time, ou facções de uma mesma "Organizada" se desentendem, porém isso se torna de certa maneira fácil de identificar e de se combater. Assim também, um simples acompanhador de Torcidas Organizadas sabe que os confrontos continuam a ocorrer, e ouso a dizer que cada dia mais, principalmente em dias de clássicos pelas subdivisões das Torcidas Organizadas em pontos das regiões e bairros de BH, o que se torna uma grande dificuldade.
O que quero demonstrar com tudo isso é que as medidas que atualmente são tomadas para coibir a violência entre Torcidas Organizadas são ineficazes e continuarão a serem desde que se faça um estudo sério e comprometido sobre tal fenômeno social. Um caminho a seguir para tal compressão e que proponho aqui é tentar pensar a violência entre Torcidas Organizadas a partir da idéia de identidades relacionais conflituosas, ou seja, é tentar compreender a violência cultural entre Torcidas Organizadas. Para isso deve ser feita algumas considerações antes.
Podemos dizer em relação aos torcedores (note-se que aqui estamos falando estritamente de torcedores, deixando de lado assaltos, furtos etc..) que existem pelo menos três tipos de violência mais recorrente: a violência afetiva, a violência simbólica e a violência física. A violência afetiva:

é expressa principalmente durante a tensão do jogo, no qual um chute errado, um gol perdido ou um erro do juiz é recriminado por xingamentos dos torcedores. Esse tipo de violência engloba todos os tipos de torcedores que acompanham os jogos de uma forma mais individualizada, não sendo exclusividade nenhuma das Torcidas Organizadas. (VILAÇA, 2009, p.37).
Esse tipo de violência pode dizer que se torna quase inevitável, tendo sua causa o jogo de futebol em si e questões sociais como educação. É freqüente esse tipo de violência se desencadear em violência física, porém quando é o caso essa se torna fácil de ser combatida principalmente pela presença de autoridades policiais, sendo que até mesmo os próprios torcedores muitas vezes se encarregam de apaziguar o desentendimento. Ao proibir a comercialização de bebidas alcoólicas dentro dos estádios contribuiu-se para a diminuição da violência física ocasionada pela violência afetiva. Por outro lado potencializou o uso de bebidas alcoólicas em locais onde se tem maior ocorrência de violência física entre torcedores: no lado externo do estádio.

A violência simbólica:
A violência simbólica, aqui entendida de acordo com a tipologia desenvolvida por Dunning e utilizada por Heloisa Helena Baldy dos Reis como atitudes verbais e/ou gestuais, como em cantos, gritos de guerras e gestos, enquadrando também elementos como bandeiras, bandeirões e faixas, é um aspecto relevante dentro de uma Torcida Organizada, na medida em que também funciona na criação, manutenção e auto-afirmação da identidade de uma Torcida Organizada. (VILAÇA, 2009, p.65).

Como se pode perceber, esse tipo de violência é singular as Torcidas Organizadas e seu uso se restringe as arquibancadas dos estádios – ou bancada. A festa nas arquibancadas se refere à criatividade, variedade e competência no uso do capital simbólico da Organizada, que aos olhos de da outra Torcida rival se revela de forma violenta. Vale ressaltar que esse campo simbólico das Torcidas Organizadas que também é permeado pela violência – seja em musicas, faixas ou bandeiras – é de certa forma aceitada e estimulada pelo público de futebol. O que ocorre de forma freqüente é o transbordamento da violência simbólica se situando na violência física (pista), sendo que tanto a violência simbólica expressa em festa nas “bancadas” tanto a violência física são valores dentro da realidade das Torcidas Organizadas constituindo a identidade destas.
Ora, as Torcidas Organizadas já há algum tempo fazem parte do espetáculo futebolístico no Brasil sendo que através desses agrupamentos de torcedores que se fazem e divulgam as festas nos estádios, e que assim favorece a captação econômica tanto pelos clubes de futebol quanto por outros orgãos que atuam diretamente no estádio (como a ADEMG), são esses agrupamentos que acompanham os clubes em quase todos os estádios do Brasil e que é presença certa em todos os jogos. Além do mais é ilusório pensar que acabando de uma hora pra outra com as Torcidas Organizadas se cessariam as brigas de torcedores. Pelo contrário, correria o risco de se colocar no clandestino esses agrupamentos, o que perderia toda forma de controle existente hoje, inclusive na identificação desses agrupamentos.
O que eu proponho a pensarmos é uma forma de valorizar e estimular, dentro das próprias Torcidas Organizadas, apenas um desses aspectos, ou seja, a “bancada”, sendo que a torcida que insistisse na “pista” passaria por um processo de “perca de identidade” no qual o material simbólico utilizado para criar e afirmar sua identidade seriam recolhidos gradativamente de acordo com o uso da violência física da T.O. Ou seja, a Torcida Organizada que insistisse em ser uma torcida de "pista" estaria fadada ao desaparecimento. Penso que com medidas nesse sentido, juntamente com campanhas de conscientização, valorização e divulgação de outras atividades exercidas pelas Torcidas Organizadas (como ações sociais) acabariam por gerar um controle maior sobre os membros das TO’s (na medida em que nenhuma torcida quer ficar sem exibir e utilizar seus materiais simbólicos), junto a isso uma conscientização e uma mudança de perfil daqueles que desejam se filiar a uma torcida.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Apresentação

O Centro de Estudos de Fenômenos Sociais Esportivos (CEFSES) foi formado por um grupo de profissionais e graduandos em Ciências Sociais com o objetivo de aprofundar nos estudos sobre fenômenos ligados ao esporte, tendo uma atenção especial sobre o futebol e o fenômeno "Torcidas Organizadas". O desafio de nossos estudos veio, a princípio, através de experiências pessoais baseadas na apreciação do futebol por cada um dos integram este grupo, tendo assim uma ligação próxima e direta com fenômenos ligados ao futebol. Em um segundo momento, com o amadurecimento na área das Ciências Sociais - o que nos tornou aptos a pesquisar, compreender, analisar e atuar de forma a propor e executar atividade e projetos sobre os fenômenos sociais - escolhemos por atuar nessa área particularmente por três motivos: 1º - pelo grande interesse, curiosidade e paixão que o tema desperta em cada um de nós; 2º - por entendermos, através de alguns estudos desenvolvidos por nós, assim com outros ainda estão sendo desenvolvidos, que as ações tomadas pelo poder público (mais especificamente em Belo Horizonte) que visam coibir a violência e o vandalismo dos torcedores, principalmente nas Torcidas Organizadas, são baseadas em uma compreensão, no minímo, equivocada do fenômeno, o que por sua vez acaba por serem tomadas atitudes que são na verdade superficiais, paliativo que não conseguem alcançar o âmago do problema; 3º- e também por entendermos que somos Cientistas Sociais capacitados para atuarmos nesta área, e por já ter-mos um interesse e vivência prévia nos assuntos relacionados, o que nos ajuda a possuir-mos uma visão mais clara do fenômeno - ou seja, por haver uma mescla de competência académica em Ciências Sociais e uma vivência empírica da realidade social em questão - temos clara a ideia de que é não só uma oportunidade para a nossa atuação enquanto profissionais, mas também uma certa obrigação de nossa parte tentarmos melhorar o ambiente social que nos cerca.
Assim, este Blog surgi como um canal para divulgação de produções desenvolvidas por nos, tanto por outras entidades, instituições e autores, assim como um meio de abrimos uma discussão séria e comprometida visando sempre a melhoria e otimização dos espaços, instituições, entidades e todos aqueles que se envolvem, de uma forma ou de outra, com o ambiente social que sofre a influência dos fenômenos sociais ligados ao esporte.